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A Flexibilizaçao do Iuane e como isso afeta o Brasil


É preciso considerar que a flexibilização, embora positiva para a economia mundial, também tem riscos importantes.inflacao (1)

A flexibilização do iuane, anunciada pelo governo chinês em plena Copa da Fifa que está sendo realizada na Áfica do Sul, é uma providência importante, mas, deve-se lembrar, também envolve riscos.

A medida vai na direção de corrigir um desequilíbrio muito anterior à crise que abalou o mundo em 2008 e que, se resolvido satisfatoriamente, trará benefícios a uma recuperação saudável da economia mundial.

O preço da moeda chinesa, hoje claramente subvalorizada, não reflete a trajetória de ganhos de competitividade internacional daquele país nas últimas décadas.

Constitui, assim, um subsídio artificial à penetração dos produtos chineses nos mercados internacionais.

A força comercial da China, ao contrário do que muitos pensam, está bastante apoiada na moeda fraca, ainda que possa haver um papel para os fatores tipicamente apontados como vilões, que incluem padrões ambientais e trabalhistas e práticas comerciais.

Na prática, nos últimos anos o iuane fraco vem “exportando” deflação para o mundo, inclusive para o Brasil.

A China inunda os mercados mundiais com preços baixos e, com isso, contribuiu para que, durante os anos de prosperidade, entre 2004 e 2008, as economias desenvolvidas pudessem acelerar o crescimento sem grandes apertos na política monetária.

Quando se iniciar o movimento contrário, a flexibilização e a esperada apreciação do iuane, a China passará a “exportar” inflação para o mundo, especialmente para as economias mais desenvolvidas.

O acréscimo da inflação possivelmente não seria um problema tão significativo, já que os índices de preços estão abaixo dos limites de segurança.

Por outro lado, o câmbio mais favorável às empresas norte-americanas e europeias traria um estímulo à atividade econômica naqueles países, o que é útil para uma trajetória de recuperação mundial no pós-crise.

Países emergentes que negociam sua moeda majoritariamente contra o dólar norte-americano, como é o caso do Brasil, sentirão os mesmos ventos: importarão inflação chinesa e exportarão mais bens e serviços.

Quem procura entender o impacto da liberalização cambial chinesa sobre o Brasil deve olhar para estes dois efeitos.

O primeiro efeito é o que incide sobre a inflação e a política monetária.

Várias economias emergentes se mostraram mais resilientes à crise, e mantêm a economia em ritmo forte.

Os preços ao consumidor ameaçam escapar das margens de segurança.

Assim, esses países precisarão de doses mais fortes de política monetária para segurar o impacto do aumento dos preços de importações chinesas sobre a inflação doméstica.

É claro que, com tempo, parte da importação chinesa será substituída por produção doméstica e de outros fornecedores internacionais.

Entretanto, não é preciso estudar Economia para descobrir que os preços sempre se movem mais rapidamente que a produção, em resposta a choques como uma mudança em paridades cambiais.

No curto prazo, o iuane fraco contribuirá para acelerar o IPCA brasileiro [o Índice de Preços ao Consumidor Amplo, que é a inflação oficial do País – nota do editor] e pesará nas decisões das próximas reuniões do Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom), mas não aparecerá tão rapidamente nos números do Sistema Integrado de Comércio Exterior (Siscomex), do Ministério do Desenvolvimento.

O segundo efeito, que é o lado positivo da história para vários países emergentes, é o estímulo aos seus produtores domésticos, pela redução de seus preços relativos.

Com a desvalorização, haverá maior estímulo à exportação brasileira de bens e serviços, assim como menor competitividade dos fornecedores chineses dentro do Brasil.

Trata-se de uma colher-de-chá que os produtores brasileiros, atualmente solapados pela dupla pressão do câmbio chinês e pela infernal carga tributária brasileira, há muito esperam, o que trará oportunidades para novas conquistas comerciais.

É preciso considerar que a flexibilização, embora positiva para a economia mundial, também tem riscos importantes.

O principal deles é que seu impacto está fortemente atrelado ao timing da sua implantação.

Se for essa implantação lenta e gradual, tanto melhor, já que dará tempo para que os ajustes de fornecedores ocorram com menor pressão sobre os preços.

Isto vale tanto para a economia mundial quanto para o Brasil.

Se a mudança cambial na China for rápida e significativa, poderá causar desequilíbrios importantes de curto prazo. Em especial, pressionará a política monetária de países emergentes, como o Brasil, e exigirá aumentos de juros, enquanto os efeitos positivos sobre o comércio demorarão mais a aparecer.

Se for suficientemente forte, a mudança cambial chinesa trará turbulência aos mercados financeiros brasileiros, anulando o efeito positivo sobre os preços das ações das empresas mais expostas à China.

Em qualquer dos casos, entretanto, a necessária flexibilização do câmbio chinês trará impactos sobre a economia brasileira, à medida que for implementada.

Vale acompanhar particularmente o efeito sobre os preços domésticos e sobre o comércio exterior de bens e serviços.

Nos próximos anos, é possível antecipar alterações importantes nas pautas de exportação e importação do Brasil, tanto em termos de origem-destino quanto em termos de produto, em função dessa mudança.

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